Prescrição MOST®: como uma única prescrição pode atender diferentes más-oclusões?
- Profa. Dra. Liliana Maltagliati

- 15 de ago.
- 6 min de leitura
Na Ortodontia, a escolha da prescrição dos bráquetes sempre esteve relacionada à busca por maior previsibilidade clínica.
Ao longo do tempo, diferentes prescrições foram desenvolvidas com o objetivo de atender padrões específicos de posicionamento dentário, necessidades biomecânicas e preferências clínicas.
Essa variedade ampliou possibilidades, mas também trouxe um desafio importante para a prática diária: como simplificar a escolha da prescrição sem perder capacidade de individualização?
Foi a partir dessa pergunta que nasceu a Prescrição Ortodôntica MOST®.
A proposta da MOST® não é eliminar o raciocínio clínico. Pelo contrário.
Ela foi desenvolvida para organizar esse raciocínio, reduzir complexidades desnecessárias e permitir que o ortodontista trabalhe com mais versatilidade, eficiência e controle em diferentes más-oclusões.
Ao longo da minha trajetória clínica, ficou cada vez mais claro que a individualização não depende apenas de ter muitas prescrições disponíveis.
Ela depende de saber como, quando e por que utilizar cada recurso.

A prescrição não trata sozinha
Antes de falar sobre a Prescrição MOST®, é importante reforçar um princípio fundamental:
nenhuma prescrição trata sozinha.
O resultado ortodôntico depende da integração entre diagnóstico, planejamento, biomecânica, posicionamento dos bráquetes, escolha dos fios, sequência mecânica, controle de ancoragem, colaboração do paciente e finalização.
A prescrição é uma ferramenta dentro desse conjunto.
Ela influencia a forma como determinadas informações de torque, angulação e posicionamento são incorporadas ao tratamento, mas não substitui o domínio clínico do ortodontista.
Quando uma prescrição é interpretada como uma solução automática, o tratamento se fragiliza.
Quando é compreendida como parte de uma estratégia, ela passa a contribuir para maior coerência clínica.
Por que tantas prescrições podem dificultar a prática
Em muitos consultórios, a presença de múltiplas prescrições pode parecer, inicialmente, uma vantagem.
A ideia é que cada caso tenha uma prescrição mais específica, mais direcionada ou mais adequada a determinado padrão de má-oclusão.
No entanto, na rotina clínica, essa multiplicidade pode gerar dificuldades.
Entre elas:
aumento da complexidade na escolha dos bráquetes;
maior necessidade de estoque;
risco de confusão entre prescrições;
dificuldade de padronização da mecânica;
maior dependência de compensações operacionais;
menor fluidez no planejamento do caso;
dificuldade de reposição ou substituição de peças.
A complexidade, quando não é bem organizada, pode atrapalhar a eficiência.
Simplificar não significa empobrecer a Ortodontia.
Significa retirar o excesso que não contribui para o controle clínico.
A lógica da Prescrição MOST®
A Prescrição MOST® foi desenvolvida com o objetivo de reunir, em uma proposta única, recursos que permitam atender diferentes más-oclusões com versatilidade.
Essa lógica parte de um princípio importante:
a individualização não precisa estar concentrada apenas na existência de várias prescrições diferentes.
Ela também pode estar na forma como o ortodontista interpreta o caso, posiciona os bráquetes, escolhe os fios, conduz a mecânica e utiliza recursos auxiliares.
Por isso, a MOST® busca simplificar a tomada de decisão sem retirar do profissional a possibilidade de individualizar.
A proposta é oferecer uma base clínica mais racional, com menor complexidade operacional e maior aplicabilidade na rotina ortodôntica.
Uma prescrição para diferentes más-oclusões
Uma dúvida comum é se uma única prescrição pode realmente ser utilizada em más-oclusões diferentes.
A resposta depende de como se entende o papel da prescrição.
Se a prescrição for vista como a única responsável pelo tratamento, essa ideia pode parecer limitada.
Mas se ela for compreendida como parte de um sistema de decisões clínicas, a lógica muda.
As más-oclusões não são tratadas apenas pela informação contida no bráquete.
Elas são tratadas pela combinação entre:
diagnóstico correto;
planejamento individualizado;
seleção adequada dos arcos;
controle dos efeitos biomecânicos;
recursos auxiliares quando necessários;
posicionamento criterioso dos acessórios;
acompanhamento da resposta clínica;
finalização cuidadosa.
Dentro dessa visão, uma prescrição versátil pode servir como base para diferentes situações, desde que o ortodontista saiba adaptar sua mecânica ao caso.
Simplificação não é padronização cega
Um ponto essencial é diferenciar simplificação de padronização sem critério.
A Prescrição MOST® não propõe que todos os pacientes sejam tratados da mesma forma.
Também não propõe que o ortodontista deixe de analisar as particularidades de cada má-oclusão.
A simplificação está na organização da prescrição e na redução de complexidades operacionais que, muitas vezes, não melhoram necessariamente o resultado clínico.
O planejamento continua sendo individual.
A biomecânica continua sendo individual.
As decisões clínicas continuam sendo individualizadas.
O que muda é que a prescrição passa a oferecer uma base mais simples e versátil para conduzir essas decisões.
Estoque mais racional, prática mais eficiente
Um dos grandes desafios da rotina ortodôntica é administrar diferentes peças, prescrições, reposições e variações de bráquetes.
Quanto maior a variedade de prescrições utilizadas no consultório, maior tende a ser a complexidade de estoque.
Isso pode gerar impacto direto na prática:
dificuldade de organização;
maior risco de erro na seleção;
aumento de custo operacional;
necessidade de múltiplos kits;
menor previsibilidade na reposição;
mais tempo dedicado a decisões logísticas.
A Prescrição MOST® também nasce dessa preocupação prática.
Ela busca simplificar a rotina sem retirar a capacidade de adaptação clínica.
Em outras palavras, a proposta é facilitar o consultório sem reduzir a qualidade do raciocínio ortodôntico.
A individualização está no olhar clínico
Durante muito tempo, a individualização foi associada principalmente à escolha de diferentes prescrições.
Mas a prática clínica mostra que individualizar vai muito além disso.
Individualizar é compreender o padrão facial, a má-oclusão, a posição dentária, a necessidade de torque, os limites periodontais, o comportamento dos tecidos, a colaboração do paciente e os objetivos finais do tratamento.
É também saber quando compensar, quando não compensar, quando avançar, quando esperar e quando modificar a estratégia.
A prescrição ajuda.
Mas quem individualiza é o ortodontista.
A Prescrição MOST® foi pensada para oferecer uma base que facilite esse processo, sem substituir a análise clínica.
Versatilidade com responsabilidade biomecânica
Uma prescrição versátil precisa ser utilizada com responsabilidade.
Isso significa que o ortodontista deve compreender os efeitos esperados, as limitações do caso e a forma como a mecânica será conduzida.
A versatilidade não deve ser confundida com uso indiscriminado.
Ela exige conhecimento.
Exige leitura clínica.
Exige domínio biomecânico.
Quando bem compreendida, a Prescrição MOST® permite ao profissional trabalhar com mais clareza em diferentes situações clínicas.
Mas essa clareza vem do raciocínio por trás da prescrição, não apenas da escolha do bráquete.
Por que a MOST® dialoga com a Ortodontia contemporânea
A Ortodontia contemporânea exige eficiência, previsibilidade e simplificação inteligente.
Os consultórios precisam de fluxos mais organizados, estoques mais racionais e decisões clínicas mais seguras.
Ao mesmo tempo, os tratamentos exigem cada vez mais individualização, controle e capacidade de adaptação.
A Prescrição MOST® se insere nesse cenário porque propõe uma forma mais simples de organizar a prática sem abandonar a complexidade necessária da Ortodontia.
Ela não reduz o tratamento a uma fórmula.
Ela oferece uma base para que o ortodontista raciocine com mais fluidez.
A pergunta mais importante
Quando se pergunta como uma única prescrição pode atender diferentes más-oclusões, a resposta não está apenas na prescrição em si.
Está na forma como ela é utilizada.
Uma prescrição bem pensada pode oferecer versatilidade.
Mas essa versatilidade só se transforma em resultado quando o ortodontista domina diagnóstico, planejamento e biomecânica.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas:
uma prescrição pode atender diferentes casos?
A pergunta mais importante é:
como essa prescrição ajuda o ortodontista a simplificar a prática sem perder controle clínico?
Uma proposta para simplificar sem limitar
A Prescrição MOST® foi desenvolvida para simplificar a prática clínica, otimizar o controle de estoque, preservar a individualização dos bráquetes e atender de forma versátil diferentes más-oclusões.
Mas sua principal força não está apenas na redução da quantidade de prescrições.
Está na lógica por trás dessa simplificação.
Uma lógica que entende que a Ortodontia precisa ser eficiente, mas não automática.
Precisa ser organizada, mas não rígida.
Precisa ser simples, mas não simplista.
Para conhecer melhor essa proposta, a página da Prescrição Ortodôntica MOST® reúne informações sobre sua lógica, aplicação e desenvolvimento.
Porque simplificar a Ortodontia não significa reduzir o pensamento clínico.
Significa torná-lo mais claro.
Profa. Dra. Liliana Maltagliati
Ortodontista • Referência em Mecânica Ortodôntica de Baixa Fricção
Idealizadora da Prescrição Ortodôntica MOST®
Pós-Doutoranda — Saint Louis University (EUA) | Universidade de São Paulo (USP)
Sobre a autora
Mestre e Doutora em Ortodontia pela Universidade de São Paulo (USP — Bauru), a Profa. Dra. Liliana Maltagliati é uma das principais referências brasileiras e internacionais em mecânica ortodôntica de baixa fricção e sistemas autoligados.
Realizou mini-residência em Dor Orofacial pela University of Minnesota (EUA), atua como Professora-Adjunta do Programa de Mestrado em Ortodontia da Universidade Univeritas/UNG e foi premiada pela World Federation of Orthodontists (WFO) em 2023 com o Lee W. Graber Orthodontics Changing Lives Award.
Autora de dois livros sobre tratamento ortodôntico com bráquetes autoligados, possui mais de 90 artigos científicos publicados, é revisora de periódicos nacionais e internacionais e já ministrou mais de 200 palestras no Brasil e no exterior.
É a idealizadora da Prescrição Ortodôntica MOST®, desenvolvida para simplificar a prática clínica, otimizar o controle de estoque, preservar a individualização dos bráquetes e atender de forma versátil todas as más-oclusões.
Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado em alinhadores ortodônticos de impressão direta, em parceria entre a Saint Louis University (EUA) e a Universidade de São Paulo (USP).


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